Autor: Luciana de Castro
“Não somos tão livres quanto pensamos!” _ aos 20 anos, essa frase parece completamente sem sentido. Nessa fase da vida, tudo parece possível. Há uma sensação real de liberdade no ar. Mil possibilidades profissionais, afetivas, existenciais. Podemos experimentar, errar, recomeçar. Podemos mudar de cidade, de faculdade, de ideia. A juventude tem esse brilho da promessa: acreditamos que a vida está inteiramente nas nossas mãos, pronta para ser moldada por nossos desejos.
Mas quem já chegou aos 40, ou passou um pouco disso, sabe que alguma coisa muda. Não é só o corpo que dá sinais, ou o cansaço que chega mais rápido — é uma percepção diferente do tempo, das escolhas feitas… e, principalmente, daquilo que não foi escolhido. Esse momento vai muito além do que parece. Não é só sobre envelhecer ou refletir sobre carreira, vida afetiva. É um ponto de inflexão, um encontro com a própria existência. É quando nos perguntamos se estamos vivendo nossa própria vida com autenticidade.
Essa fase da vida traz uma sensação de balanço, como se inconscientemente fizéssemos um inventário do vivido. O que conquistei até aqui? O que ficou pelo caminho? Do que me orgulho? Do que me arrependo? Há uma maturidade que começa a se solidificar, mas junto dela, muitas vezes, vem a inquietação: será que estou no caminho certo? Será que ainda dá tempo de mudar?
Para Carl Rogers, um dos principais nomes da psicologia humanista, autenticidade está intimamente ligada à congruência — ou seja, à coerência entre o que a pessoa sente internamente e aquilo que ela expressa ou vive no mundo externo. Uma pessoa autêntica é aquela capaz de reconhecer e aceitar seus sentimentos reais, sem negar sua experiência interior para se ajustar às expectativas dos outros.
Rogers descreve a autenticidade como uma característica central da personalidade saudável e do processo de desenvolvimento pessoal. Quando uma pessoa é congruente, ela está em contato com seu “self real” (eu verdadeiro) e não apenas com uma imagem idealizada de si mesma, construída para obter aprovação social. Essa vivência permite relações mais genuínas e uma vida com maior sentido.
Ser congruente, no entanto, não é simples. Requer disposição para enfrentar conflitos internos, admitir contradições, rever crenças. Requer coragem para assumir o que sentimos, mesmo que isso desagrade alguém. Requer abrir mão da perfeição, da performance, e aceitar quem somos — com limites, com desejos, com imperfeições.
Mas, afinal, quantas pessoas você conhece que vivem assim? Que falam o que sentem com honestidade, que se colocam no mundo de maneira verdadeira, que têm relações onde podem ser vulneráveis sem medo?
A verdade é que a maioria de nós foi ensinada a seguir um modelo, a desempenhar papéis, a dar conta. Desde cedo, aprendemos a agradar, a sorrir mesmo sem vontade, a colocar os sentimentos em segundo plano em nome da harmonia, do sucesso, da expectativa familiar. Não aprendemos a nos escutar. Não aprendemos a nomear o que sentimos. E assim, com o tempo, perdemos o contato com quem somos de verdade.
E quando nos perdemos de nós mesmos, é comum tentarmos nos encontrar em outras coisas: no excesso de trabalho, na busca por reconhecimento, na comparação constante com os outros. Vivemos ocupados demais para sentir, distraídos demais para perceber o que está faltando. Vamos empilhando compromissos e acumulando metas, como se a produtividade pudesse preencher o que falta por dentro.
Você já parou para se perguntar se realmente se conhece? Se sabe, de fato, o que se passa dentro de você — seus sentimentos, angústias, frustrações, desejos? Ou será que a vida foi te colocando em modo automático, resolvendo uma coisa atrás da outra, e você simplesmente nunca teve tempo (ou espaço) para se olhar com calma? A verdade é que quase ninguém nos ensina a fazer isso. Não aprendemos na escola, nem na maioria dos ambientes em que crescemos. E assim vamos vivendo para fora, atendendo expectativas, sem nos conectar verdadeiramente com o que se passa aqui dentro.
Criamos uma vida que muitas vezes é eficiente, mas não tem alma. Que parece boa nas fotos, mas que não desperta mais entusiasmo. Que segue funcionando, mas que, lá no fundo, está perdendo o sentido.
E isso se reflete também nos nossos relacionamentos.
Será que você construiu vínculos verdadeiros com as pessoas próximas? Já parou pra pensar nisso? Muitas vezes criamos relações marcadas pelo medo de perder, pela necessidade constante de agradar, pelo receio da rejeição. E, sem perceber, confundimos esse esforço por aceitação com amor. Sem perceber, nos colocamos em relações em que deixamos de ser nós mesmos para sermos aceitos. Ou ficamos tentando salvar o outro, nos responsabilizando por dores que não são nossas.
Talvez nunca tenhamos realmente parado para prestar atenção à aqueles que estão na nossa vida… seus sentimentos, seus sonhos. Assim as relações vão perdendo a intimidade, a ligação. E não estou falando aqui somente de relacionamento amoroso, mas de todos os relacionamentos, com amigos, família, pais, filhos etc. Enquanto não olhamos para isso, nossa liberdade é limitada. Por mais que pareça que estamos escolhendo, estamos, na verdade, apenas seguindo algo que não foi realmente escrito por nós. Se não somos congruentes conosco mesmos também nunca o seremos em nossas relações.
Deixo aqui então um convite, um momento de parar, olhar com mais clareza e, se for o caso, mudar de direção. A terapia pode ser uma aliada poderosa nesse caminho — ajudando a entender o que é verdadeiramente nosso e o que estamos carregando sem perceber.
Ainda temos muito pela frente, mas agora, temos também a consciência de que o tempo é precioso, e que viver com autenticidade é urgente.
Acho que uma das grandes lições da maturidade é justamente essa: aceitar, com alguma serenidade, que não somos tão livres quanto pensávamos, mas que podemos ser autênticos e congruentes conosco mesmos e assim também com os outros. Quando as ilusões de vida livre dos 20 anos caem há o nascimento dessa liberdade madura, real, que aceita que as limitações também são parte dessa tal liberdade. Me lembro de uma professora querida que me disse uma frase quando eu estava com os meus vinte e poucos anos, e que ficou gravada em mim: “Liberdade, ainda que à tardinha.”
Na época eu não entendi muito bem, mas hoje ela faz todo sentido. Eu sempre dou um sorriso quando lembro disso. Porque é exatamente assim: mesmo em meio às exigências do mundo, às responsabilidades, aos papéis que agora já não podemos largar tão facilmente… ainda existe espaço. Um espaço que é só nosso e que só nós mesmos podemos buscá-lo. A terapia é um desses espaços.
Essa decisão de se conhecer se chama maturidade, lucidez. E, acima de tudo: é libertador. Amadurecer, muitas vezes, exige esse realinhamento de rota — não para descartar tudo o que foi construído até aqui, mas para reorganizar. Não se trata de começar do zero, mas de seguir adiante com mais consciência, escolhendo com mais verdade. A vida precisa fazer sentido, precisa despertar ânimo, vontade de estar presente, coragem de viver com autenticidade.
Porque no fim das contas, a verdadeira liberdade talvez não esteja em fazer tudo o que queremos, mas em viver em paz com quem somos. Não é sobre ausência de limites, e sim sobre presença — presença em nós mesmos, nas escolhas que fazemos, nas relações que cultivamos. Quando reconhecemos que não precisamos mais nos provar o tempo todo, quando conseguimos nos escutar com honestidade e caminhar com mais inteireza, descobrimos que há liberdade, sim — talvez não a liberdade grandiosa e impulsiva da juventude, mas uma liberdade mais serena, mais profunda, que chega com maturidade, com empenho e coragem… ainda que à tardinha.